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- O melhor remédio para ressaca? Aspirina e café
Sexta-feira, dia do tradicional happy hour, ai vai mais uma dica, principalmente para o dia seguinte.
Ao contrário do que indicam as aparências, não foi pensando em alcoólatras nem em universitários beberrões que Michael L. Oshinsky e sua equipe, da Universidade Thomas Jefferson da Filadélfia, conduziram um estudo sobre ressaca. “Pessoas hipersensíveis a enxaquecas não precisam ficar bêbadas para terem dores de cabeça provocadas pelo álcool – para algumas, basta uma cerveja e o sofrimento no dia seguinte é certo”, diz o pesquisador.
Entre os mais sensíveis estão 25% das mulheres em período reprodutivo e 4% da população mundial de ambos os sexos, que têm dores de cabeça crônicas – mais de 15 por mês. A boa notícia para essa turma – e, indiretamente, para aqueles que passam um pouco da conta quando bebem também – é que a equipe de Oshinsky chancelou a fórmula para combater as dores de cabeça ocasionadas pela ressaca que muitos já empregavam: café e aspirina.
A equipe sondou as causas do mal-estar, que até então eram desconhecidas. Deram algumas doses de álcool a ratos de laboratório e começaram os testes. Em primeiro lugar, examinaram a tese vigente. Até hoje, acreditava-se que a causa das dores de cabeça era um subproduto do metabolismo do álcool no organismo, o acetaldeído. Quando os pesquisadores deram aos camundongos inibidores da ação dessa substância, porém, as dores continuaram. Eles avaliaram, então, uma outra teoria, a de que as enxaquecas fossem o resultado não do acetaldeído, mas de um produto de sua quebra, o acetato. E, combatendo os efeitos desse composto, conseguiram bons resultados.
Neste ponto, é bom perguntar: e como é que os cientistas sabiam se os ratos tinham dores de cabeça ou não? Com um aparelho chamado Filamento de von Frey. Esse dispositivo alongado “cutucava” as regiões do rosto e da cabeça dos ratos que ficam doloridas em casos de cefaléia. Se o rato recuasse a cabeça ou empurrasse o aparelho com as patas, ele estava sentindo dor. “Acetato é, basicamente, vinagre. Nós temos acetato em nosso corpo e o consumimos em alimentos. Por isso, no passado, as pessoas pensavam que essa substância não poderia ser a razão das dores. Mas o que acontece no caso do álcool é que ele produz tanto acetato que o corpo fica sobrecarregado e não consegue mais processá-lo”, explica Oshinsky.
Se os resultados desse experimento forem confirmados por testes posteriores, a receita para diminuir os efeitos dessa sobrecarga é tomar uma aspirina logo após a bebida alcoolica e consumir cafeína de quatro a oito horas depois. “E sob nenhuma hipótese tomar Tylenol ou similares. O princípio ativo desses medicamentos é tóxico ao fígado quando misturado ao álcool”, adverte Oshinsky.
De toda forma, ainda vale a sugestão de moderar na bebida, já que a regra do café com aspirina não cura enjôo nem vômito – e muito menos cirrose.
O que já se sabia sobre o assunto
Sem ressaca: Daniel Kerr, pesquisador do Laboratório de Neurociências do Hospital das Clínicas de São Paulo, na companhia de uma cerveja Guinness (Arquivo Pessoal)
Para Daniel Kerr, pesquisador do Laboratório de Neurociências do Hospital das Clínicas de São Paulo, as sugestões do estudo de Oshinsky não são nada extravagantes. “Essa é a velha questão de que o veneno está na dose”, ele diz. Segundo Kerr, o caminho do metabolismo do álcool no corpo humano já era conhecido. Sabia-se que o acetato era um de seus subprodutos. E faz sentido que a substância cause problemas quando produzida em excesso.
“O acetato tem dois caminhos possíveis depois de entrar no corpo humano: ou faz parte do metabolismo normal da glicose e se transforma em energia ou se converte no que chamamos corpos cetônicos”, explica. “Essas substâncias provocam a redução do pH do sangue – ou seja, o tornam mais ácido – o que pode desestabilizar diversas reações que acontecem no organismo.”
Quando o metabolismo humano está normal, a glicose é processada gerando, entre outras substâncias, o oxaloacetato. Esse ácido se combina com o acetato para transformá-lo, mais tarde, em energia, CO2 e água. “É por essa razão que a sabedoria popular aconselha a não beber de estômago vazio. Quanto mais açúcar alguém tiver no sangue quando ingerir álcool, mais fácil será a sua quebra pelo organismo”, diz Kerr.
Sobre o tratamento recomendado pelo estudo, o neurocientista diz que não há nenhuma novidade na sugestão de aspirina, que é um bom remédio para dores de cabeça em geral, independente de suas causas. Já o café atua em uma outra frente, bloqueando os receptores de adenosina, substância produzida na quebra do acetato e que, em excesso, pode ser prejudicial.
É preciso ter parcimônia no otimismo com o estudo, já que ele usou um modelo animal, o que pode apresentar diferenças com relação ao corpo humano. Mas, em geral, Kerr tende a acreditar que suas conclusões sejam razoáveis. “Eu costumava brincar com meus alunos que a pior coisa que alguém poderia fazer a uma pessoa alcoolizada é dar-lhe café – só o que conseguiriam com isso era ter um bêbado acordado. Parece que agora terei que inventar uma nova piada para minhas aulas”, brinca.
Especialista: Daniel Kerr, bioquímico e neurocientista do Laboratório de Neurociências do Hospital das Clínicas de São Paulo.
Envolvimento com o assunto: Daniel trabalha com neurociência desde 2002. É formado em Ciências Moleculares pela USP e mestrado e doutorado em bioquímica, com teses focadas em neurociência.
Conclusão
As conclusões de Oshinsky parecem razoáveis, ainda que precisem de mais testes, especialmente para comprovar se são válidas para humanos. Contudo, como bem apontou Daniel Kerr, uma coisa é certa: “Tomar café e aspirina não vai fazer mal a ninguém”.
Leia também: http://pausaparaocaffe.blogspot.com/2011/01/sexta-feira-dia-da-geladinha-vai-ai-uma.html

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