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- Caju com resíduos faz do piso à telha
Junte montanhas de buchas de coco; caminhões e caminhões de aparas de papel; toneladas de cascas de arroz e serragem à vontade e você estará às voltas com problemas de espaço em aterros sanitários, alto risco de incêndio e grande probabilidade de entulhamento de cursos d’água. Acrescente LCC e tudo isso vira material de construção de qualidade, com alta resistência!
E o que é LCC? É Líquido de Castanha de Caju, um subproduto da indústria de castanha de caju, disponível e barato em estados como Ceará e Piauí, de onde sai quase 80% da produção brasileira. O líquido é, na verdade, um óleo que recobre o fruto do cajueiro (Anacardium occidentale), lembrando que o fruto é a castanha, enquanto aquela parte suculenta entre o amarelo e o vermelho a que chamamos de caju é apenas um pedúnculo.
No Brasil, para cada tonelada de castanha de caju processada, são obtidos cerca de 650 quilos de LCC. Como a produção brasileira de castanhas anda em torno dos 230 mil toneladas e o uso industrial do LCC ainda é muito incipiente, não é difícil concluir quanto óleo anda sobrando…
Extremamente corrosivo quando cru, o óleo contém ácido anacárdico, cardanol e diversas outras substâncias de interesse. Dependendo da forma como é extraído, permite a polimerização, ou seja, pode passar por uma reação química que transforma as moléculas, combinando-as como macromoléculas. Em outras palavras, fica tudo quimicamente colado, conferindo resistência extra aos produtos.
A ideia de transformar resíduos de biomassa em material de construção não é nenhuma novidade, mas as misturas destes resíduos agrícolas e industriais com o LCC, sim. Tanto que já foi requerida patente junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). E o engenheiro químico João Tarciso Cyrino Bessa já montou uma empresa para trabalhar com esse tipo de produto, a Aglodeste – Aglomerados do Nordeste Ltda, incubada no Parque de Desenvolvimento Tecnológico da Universidade Federal do Ceará (Padetec).
“É uma indústria-piloto, onde desenvolvemos a tecnologia para fabricação dos aglomerados, com resíduos diversos”, explica. O desenvolvimento durou 18 meses e agora a empresa está pronta para repassar a tecnologia para indústrias interessadas em colocar os diversos produtos no mercado.
O momento é oportuno, dada a queda no preço internacional das castanhas, conforme destaca Selma Elaine Mazzetto, da Universidade Federal do Ceará (UFC), no artigo Óleo da castanha de caju: oportunidades e desafios no contexto do desenvolvimento e sustentabilidade industrial: “A queda no valor das amêndoas e o baixo custo da mão-de-obra nos países produtores concorrentes, atrelados à busca por fontes renováveis como matéria-prima alternativa à petroquímica, fazem da estratégia de valorização do LCC uma perspectiva bastante atrativa”.
Segundo João Tarciso, os aglomerados feitos com LCC são polimerizados. “Foi um aprimoramento que fizemos, que nos permitiu transformar diversos resíduos – como palha de arroz, buchas de coco, papel e entulho de serraria – em pisos, divisórias e até telhas”, comenta o engenheiro. “Depois fizemos diversos testes aqui na empresa: o piso aguenta alto impacto e as telhas – feitas com LCC e papel – praticamente não absorvem água, tendo excelente desempenho”.
A tecnologia foi desenvolvida em parceria com a UFC e contou com recursos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Além dos materiais de construção, o mesmo processo também pode servir na produção de tubulação para esgotos, fabricação de circuitos impressos e isolantes.
Como vemos, está na hora de mudar os dizeres da sabedoria popular “tudo o que é demais sobra, tudo o que sobra é resto e tudo o que é resto vai para o lixo”. No caso do caju e dos resíduos agroindustriais estudados no Padetec, tudo o que é demais e sobra pode virar parede, piso, telha, cano, casa, escritório, loja…
Fonte: Planeta Sustentável

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